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MÃE MENINHA, “ONTEM, HOJE E SEMPRE”
 
Uma das grandes personalidades que o mundo do Candomblé já conheceu. Maria Escolástica da Conceição Nazaré (Mãe Menininha dos Gantois), sempre será lembrada pelo povo do Brasil e da tradição religiosa afro-brasileira.
 
No ano de 1994, a 10 de fevereiro, transcorreu o centenário do nascimento de Escolástica Maria da Conceição Nazaré, mais identificada como Mãe Menininha do Gantois.
 
A profunda relação entre a personalidade de Mãe Menininha e segmentos do mais alto significado no processo cultural brasileiro, justifica a emissão Salva­dor-Bahia, de um selo postal comemorativo à data.
 
A Cidade de Salvador-Bahia, que foi, durante sécu­los, o mais importante por­to de ingresso da gente afri­cana e, com ela, da cultura do outro lado do Atlântico, incorporou e conservou va­lores religiosos de imensa valia e importância, que ti­veram, em Mãe Menininha, uma das mais altas expres­sões de sabedoria.
 
Na sua casa de culto manteve, autêntica e respei­tável, a herança que rece­beu. Ali, com competência inexcedível, aquela filha de Oxum dirigiu yaôs, ekedis, alabês e ogans em clima de fidelidade ao legado e de sadia convivência com os demais segmentos baianos. O centenário do nasci­mento de Mãe Menininha do Gantois, destaca-se den­tre as inúmeras homenagens que a Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos tem prestado a grandes perso­nalidades marcantes do cenário cultural brasileiro.
 
PROF. CID TEIXEIRA - Presidente da Fundação Gregório de Mattos
 
Jorge Amado não viaja­va sem ouvir suas recomen­dações. Dorival Caymmi não dava um passo sem consultá-la primeiro. António Carlos Magalhães seguia seus conselhos a ferro e fogo. E Vinícius de Moraes corria a escutá-la quando estava na Bahia. Ninguém sabe ao certo quem foi a pri­meira personalidade a fre­qüentar o Terreiro do Gantois, em Salvador, mas o fato é que os braços acolhedores, de Mãe Menininha, nunca estavam parados. Fos­se recebendo seus numero­sos filhos-de-santo - o tele­fone tocava pelo menos 20 vezes por dia, com ligações de todo o País -, fosse pre­parando os saborosos acarajés, caruru e vatapá, como só ela sabia fazer, nenhum tra­ço de exaustão perturbava a rotina da guia espiritual mais paparicada da Bahia.
 
Neta de escravos, Maria Escolástica da Conceição Nazaré (nascida a 10 de fe­vereiro de 1894 na capital baiana), foi escolhida, na in­fância, pelos santos do Can­domblé como mãe-de-santo do terreiro fundado pela avó. Ainda criança, sem co­nhecimento suficiente para assumir o posto mais alto na hierarquia da religião - o de ialorixá, que dita as regras e comanda todo o funciona­mento da casa - foi iniciada nos rituais pela tia Pulquéria, sua antecessora. Era então uma moça quieta e franzina, e não escapou do apelido que a acompanhou pelo resto da vida. Aos 28 anos, assumiu definitiva­mente o terreiro. "Quando os orixás me escolheram eu não recusei, mas balancei muito para aceitar", contou certa vez. Na época, o can­domblé vivia uma fase de perseguição a paus e pedras. Relegados ao submundo religioso, os rituais termi­navam subitamente com a chegada da polícia.
 
"Vem olhar, doutor". A partir da década de 30, a res­trição arrefeceu, mas uma Lei de Jogos e Costumes exigia que o Candomblé só fosse celebrado em horários espe­cíficos, com a autorização de uma delegacia específica. Quando passava das dez da noite, lá vinham os polici­ais. "Isso é uma tradição ancestral, doutor", dizia a ialorixá ao delegado, com sua paz interior que pouco a pouco se apoderava dos outros. "Venha dar uma olhadinha o senhor também". E o jeito melindroso de Mãe Menininha, não só evitou o fechamento do terreiro, como venceu a re­sistência religiosa do che­fe da Delegacia de Jogos e Costumes, que escutou o chamado dos santos e se tornou um praticante da re­ligião depois da extinção da lei, em meados dos anos 70 - a própria Mãe Meni­ninha foi uma das princi­pais articuladoras para o término das proibições.
 
Como outras crenças, no início do século a religião afro-brasileira também era carregada de conservadorismo. Passar em frente de uma mãe-de-santo sem baixar a cabeça era grave ofensa para os segui­dores da casa. "Como um bispo progressista na Igre­ja Católica, Menininha mo­dernizou o Candomblé sem permitir que ele se transformasse num espetáculo para turistas", analisa o profes­sor Cid Teixeira, da Univer­sidade Federal da Bahia. In­formal e bonachona, não he­sitava em abrir as portas do Gantois para brancos e ca­tólicos - uma abertura que, em muitos terreiros, ainda hoje é vista com certo estranhamento.
 
Programa evangélico Ecumênica, Mãe Menini­nha nunca deixou de assis­tir à missa, numa prova de que o sincretismo religio­so da Bahia não é mero chavão. Podia comungar pela manhã e celebrar os rituais do Candomblé, à noite. No meio tempo, cui­dava das duas filhas - Cleusa e Carmem - e coor­denava todas as atividades do terreiro. Não eram poucas, já que dentro do próprio Gantois criavam-se galinhas e cultivava-se milho. Sem cobrar um tos­tão, passava o dia atenden­do seus seguidores. Para dar uma trégua aos santos, entregava-se de corpo e alma a pequenos prazeres. Cuidava com esmero da vasta coleção de objetos de louça, presentes dos filhos-de-santo ilustres. Quando estava assistindo aos capí­tulos da novela Selva de Pedra, ninguém arriscava importuná-la, e, grudava no rádio colocado no criado-mudo do quarto, para escutar programas evangé­licos e música popular (uma de suas cantoras pre­feridas era Maria Bethânia), ainda hoje freqüentadora do Gantois, junto com o ir­mão Caetano Veloso.
 
Por trás das poderosas lentes dos óculos da mãe-de-santo havia uma mulher de força inabalável. Mais que superar preconceitos e afirmar o Candomblé como símbolo da cultura negra, abriu a seita para novos se­guidores. Mais que ser ca­tólica, convenceu os bispos a permitir a entrada nas igre­jas, de mulheres com os tra­dicionais vestidos do Can­domblé. Vestidos que ela mesma exibia com elegân­cia: brancos para Oxalá, dourados para Oxum e azuis para Oxossi.
 
Sucessora, com sua paci­ência invejável, não se can­sava de tirar dúvidas sobre o Candomblé. "Deus? O mesmo Deus da Igreja é o do Candomblé. A África co­nhece o nosso Deus tanto quanto nós, com o nome de Olorum. A morada Dele é lá em cima e a nossa cá embai­xo", explicava.
 
Mãe Meni­ninha morreu a 13 de agos­to de 1986, aos 92 anos. Sua sucessora foi à filha Cleusa, que morreu no fi­nal do ano passado. A nova ialorixá do Gantois será es­colhida até novembro, numa cerimônia que pode durar até um mês.

Por: Sílvio D’Osumaré
Fonte: Revista Orixás, Candomblé e Umbanda – Ano I – Nº 04

 Publicado em: 2007-05-04 por NeyBarbosa, última modificação em: 2007-05-04 por NeyBarbosa(2722 vizualização(ões))
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