FALCÕES DE SEMPRE
Dr. Vitor Sapienza
A televisão mostrou, no domingo, em horário nobre, um documentário sobre a ação dos traficantes envolvendo menores. Os "falcões", meninos a serviço do crime, ganharam destaque e repercutiram durante toda a semana, em todo o país. Sem querer entrar no mérito da discussão, uma vez que o problema é muito mais intenso e extrapola os limites de um simples documentário, vamos falar sobre a importância do diálogo, na família.
O distanciamento entre pais e filhos, quase sempre é o maior responsável pelos erros na formação do menor. E esse distanciamento tem várias etapas: o despreparo dos adultos, a ignorância, a omissão; a falta de uma religião, a sobrecarga de trabalho dos pais, a crise, o desemprego. A ausência do pai e a exigência da dupla jornada de trabalho por parte da mãe. No vazio que se forma, o traficante se faz presente. Ele "adota" o menor, preenche essa lacuna e faz, da família, refém de seus crimes.
A falsa filantropia compra o silêncio e quando não o faz, o poder das armas assim o impõe. Somado a isso, a omissão das autoridades e a corrupção contribuem para agravar o quadro e, como conseqüência, dá aos criminosos, maior poder de fogo. Como se vê, o quadro é alarmante.
O erro do documentário foi concentrar as atenções na periferia, no morro. O consumo e o tráfico de drogas nas classes mais privilegiadas foi deixado de lado. Omissão, desconhecimento? Qualquer que seja a resposta, faltou dizer que, além da falta de diálogo, temos outra falha nesse processo todo.
Sem uma política de controle da natalidade, sem um trabalho sério junto às famílias mais pobres, sem uma política efetiva de criação de empregos, sem a religiosidade, não teremos condições de impedir que essa juventude continue se destruindo. Sem uma escola que consiga atrair e manter os filhos bastardos de uma sociedade acostumada a virar as costas para os problemas, temos poucas chances de reverter o quadro. Sem meios para suprir as necessidades mais elementares, as classes mais pobres continuam tentando sobreviver, e, sem condições, assistem ao crescimento no número de famílias que dependem dos recursos desse mercado cada vez mais cruel.
Segurança, soldado, aviãozinho ou falcão. Os apelidos variam de acordo com o local e com as funções. Conscientes da impunidade e da falsa inocência de crianças, os traficantes não perdoam deslizes e acumulam cadáveres, sejam eles da Rocinha, do Complexo do Alemão, da Mangueira, do Morro do Índio, do Capão Redondo. O lugar pouco importa, a mão-de-obra, também. A reposição é fácil e a matéria-prima, abundante. Ela está em qualquer canto, em qualquer espaço, onde sobra à carência e inexiste o diálogo. O resto é apenas conseqüência.
Fonte: Revista Guardiões da Luz, A mística em movimento – Ano I – Abril/2006 Publicado em: 2007-05-01 por NeyBarbosa, última modificação em: 2008-09-21 por RayCasales(729 vizualização(ões)) Histórico
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