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A UMBANDA É UMA RELIGIÃO AUTENTICAMENTE BRASILEIRA

Em trecho de autoria de Alvares Pessoa, no livro "Umbanda, Religião do Brasil": "Aproveitando a enorme aceitação dos fenômenos espíritas, por parte dos brasileiros, no início do século XX, Entidades que presidem o destino espiritual da raça resolveram levar avante a árdua tarefa de lhes dar uma religião que fosse genuinamente brasilei­ra. Porque, filho de três raças - a branca, a negra e a indígena -, não era justo que coubesse ao brasileiro, como imposição, uma religião 100% importada e que não reunisse os anseios das três raças a que pertence.
 
A religião que lhes estava destinada deveria ser eclética, cujas características principais fossem a caridade, a humildade e a perfeita tolerância para com a imensa ignorância dos homens. Realizando o ideal preconizado, como representante dos anseios das três raças, foi estabelecida então, no Brasil, a partir de 1908, a Religião de Umbanda".
 
O MARCO INICIAL DA UMBANDA NO BRASIL
 
Em fins de 1908, uma família tradicional de Neves, estado do Rio de Janeiro, foi surpreendida por uma ocorrência que tomou aspectos sobrenaturais: o jovem Zélio Fernandino de Moraes, que fora acometido de estranha paralisia, que os médicos não conseguiam debelar, certo dia ergueu-se do leito e declarou: 'Amanhã estarei curado". No dia seguinte, levantou-se normalmente e começou a andar, como se nada lhe houvesse tolhido os movimentos. Contava 17 anos e destinava-se à carreira militar, à Marinha.
 
15 DE NOVEMBRO DE 1908
 
A Medicina não soube explicar o que acontecera. Os tios, sacerdotes católicos, colhidos de surpresa, nada esclareceram. Um amigo da família sugeriu então uma visita à Federação Espírita, em Niterói, presidida na época por José Souza. No dia 15 de novembro o jovem Zélio foi convidado a participar da sessão. O dirigente dos trabalhos espirituais determinou que ocupasse um lugar à mesa. Tomado por uma força estranha e superior à sua vontade, contrariando as normas que impediam o afastamento de qualquer dos componentes da mesa, o jovem levantou-se dizendo: "Aqui está faltando uma flor" - e saiu da sala indo ao jardim, voltando logo depois com uma flor, que depositou no centro da mesa. Essa atitude insólita causou quase um tumulto.
 
Restabelecidos os trabalhos, manifestaram-se Espíritos que se diziam de pretos escravos e de índios; foram convidados a se retirarem, advertidos de seu estado de atraso espiritual.
 
Novamente uma força estranha dominou o jovem Zélio e ele falou, sem saber o que dizia. Ouvia apenas a sua própria voz perguntar o motivo que levava os dirigentes dos trabalhos a não aceitarem a comunicação desses Espíritos e porque eram considerados atrasados apenas pela diferença da cor e da classe social que revelavam. Seguiu-se um diálogo acalorado, e os responsáveis pela sessão procuraram doutrinar e afastar o Espírito desconhecido, que desenvolvia uma argumentação segura.
 
Um dos médiuns videntes perguntou: "Por que o irmão fala nesses termos, pretendendo que a direção aceite a manifestação dos Espíritos que, pelo grau de cultura que tiveram quando encarnados, são claramente atrasados? Por que fala desse modo, se estou vendo que me dirijo, neste momento, a um jesuíta e sua veste branca reflete uma aura de luz? E qual é o seu nome, irmão?" "Se julgam atrasados os Espíritos dos pretos e dos índios, devo dizer que amanhã estarei na casa deste aparelho, para dar início a um culto em que esses pretos e esses índios poderão dar sua mensagem e, assim, cumprir a missão que o Plano Espiritual lhes confiou. Será uma religião que falará aos humildes, simbolizando a igualdade que deve existir entre todos os irmãos, encarnados e desencarnados. E se querem um nome, que seja este: Caboclo das Sete Encruzilhadas, porque não haverá caminhos fechados para mim". "Julga o irmão que alguém irá assistir ao seu culto?" - perguntou, com certa ironia, o médium vidente. "Cada coluna de Niterói atuará como porta-voz, anunciando o culto que amanhã iniciarei".
 
PRIMEIRA SESSÃO EM 16 DE NOVEMBRO DE 1908
 
Zélio de Moraes, com 83 anos de idade, na tranqüilidade do sítio em que residia, em Cachoeiras de Macacu (Boca do Mato), relatou o que ocorrera no dia seguinte, 16 de novembro de 1908: "Minha família estava apavorada. Eu mesmo não sabia explicar o que se passava comigo. Surpreendia-me haver dialogado com aqueles austeros senhores de cabeça branca, em volta de uma mesa onde se praticava um trabalho, para mim desconhecido. Como poderia, aos 17 anos, organizar um culto? No entanto, eu mesmo falara, sem saber o que dizia e porque dizia. Era uma sensação estranha, uma força superior que me impelia a fazer e a dizer o que nem sequer se passava pelo meu pensamento. No dia seguinte, em casa de minha família, na Rua Floriano Peixoto, 30, em Neves, ao se aproximar a hora marcada - 20 horas - já se reuniam os membros da Federação Espírita, seguramente para comprovar a veracidade do que fora declarado na véspera; os parentes mais chegados, amigos, vizinhos e, do lado de fora, grande número de desconhecidos.
 
Às 20 horas manifestou-se o Caboclo das Sete Encruzilhadas. Declarou que se iniciava, naquele momento, um novo culto em que os Espíritos dos velhos africanos, que haviam servido como escravos e que, desencarnados, não encontravam campo de ação nos remanescentes das seitas negras, já deturpadas e dirigidas quase exclusivamente para trabalhos de feitiçaria, e os índios nativos da nossa terra, poderiam trabalhar em benefício dos seus irmão encarnados, qualquer que fosse a cor, a raça, o credo e a condição social. A prática da caridade, no sentido do amor fraterno, seria a característica principal desse culto, que teria por base o Evangelho de Jesus e como Mestre Supremo o Cristo - Oxalá.
 
O Caboclo estabeleceu as regras em que se processaria o culto. Sessões -assim se chamariam os períodos de trabalho espiritual - diárias, das 20 às 22h; os participantes estariam uniformizados de branco e o atendimento seria gratuito. Deu também o nome desse movimento religioso que se iniciava; disse primeiro 'Allabanda", mas, considerando que não soava bem a sua vibração, substituiu-se por "Aumbanda", ou seja, Umbanda, palavra de origem sânscrita, que se pode traduzir por "Deus ao nosso lado" ou "ao lado de Deus".
 
Em uma observação sobre Umbanda, Ramatís, no livro "A Missão do Espiritismo", diz: 'A palavra Aum é de alta significação espiritual, consagrada pe­los Mestres Bandhã, em sua expressão mística iniciática, significa movimento incessante, força centrípeta emanada do Criador. A palavra Aum-Bandhã, pronunciada na forma de um mantra, aproxima-se melhor da sonorização "Ombanda", sendo ajustada à doutrina de Umbanda, praticada no Brasil".
 
Voltando ao relato de Zélio: "A casa de trabalhos espirituais, que no momento se fundava, recebeu o nome de "Nossa Senhora da Piedade", porque assim como Maria acolhe o filho nos braços, também seriam acolhidos como filhos todos os que necessitassem de ajuda e de conforto.
 
Ditadas as bases do culto, após responder em latim e em alemão às perguntas dos sacerdotes ali presentes, o Caboclo das Sete Encruzilhadas passou à parte prática dos trabalhos, curando enfermos, fazendo andar aleijados. Antes do término da sessão, manifestou-se um Preto-Velho, Pai António, que vinha completar as curas".
 
Nos dias seguintes, verdadeira romaria formou-se na rua Floriano Peixoto. Enfermos, cegos, paralíticos vinham em busca da cura e ali a encontravam, em nome de Jesus. Médiuns, cuja manifestação mediúnica fora considerada loucura, deixaram os sanatórios e deram provas de suas qualidades excepcionais. Testemunhas que presenciaram o fato contam que médicos de sanatórios de doenças mentais mand;avam a relação de seus doentes e, a Entidade incorporada em Zélio apontava os que eram portadores de perturbações psíquicas:" Estes, eu posso curar - e os acolhia na residência do médium. Os outros eram realmente enfermos mentais; a cura competia à Medicina.
 
João Severino Ramos, umbandistas conhecido em todo o Brasil, relatou a maravilhas a que assistiu às margens do Rio Macacu, onde muitos incrédulos se tornaram fiéis seguidores da doutrina do Caboclo das Sete Encruzilhadas. Ele inclusive, pois da primeira vez que Iá estivera, fora disposto a não se deixa convencer. Sucediam-se demonstrações da presença de um poder superior., mas ele continuava descrente e pediu uma prova decisiva. Através da mediunidade de Zélio, manifestava-se, nesse dia, o Orixá Malé, que atuava principalmente no combate aos trabalhos de magia negra e na cura de obsedados. Apanhando uma pedra, o Orixá Malé jogou-a na testa de Severino. Vendo-o cair no rio, seus companheiros correram para o socorrer, temerosos de que a correnteza o levasse. "Não se movam!" - ordenou o Orixá Malé - "Ele voltará sozinho". Minutos depois, João Severino transpôs a margem do rio. Estava transfigurado. Incorporava uma Entidade que daria, depois, o nome de "Ogum de Timbiri", Guia Espiritual da Tenda São Jorge, fundada em 1936.
 
Se a parte prática dos trabalhos maravilhava a todos e as curas de obsedados se repetiam diariamente, a doutrina do culto era estudada em reuniões semanais, às quintas-feiras, na residência de Zélio.
 
O Caboclo das Sete Encruzilhadas explicava seus conceitos de fraternidade e de humildade, lembrava as passagens principais do Evangelho, recomendava o procedimento correto na vida material, o cuidado indispensável com a saúde, as normas de moral elevada e o "daí de graça, o que de graça recebestes".
 
OS SETE TEMPLOS DE UMBANDA
 
Dez anos após a fundação da Tenda Nossa Senhora da Piedade, registrada com o nome de Tenda Espírita, porque não era aceito, na época, o registro de uma entidade com a especificação de Umbanda, o Caboclo das Sete Encruzilhadas declarou que iniciava a segunda parte da sua missão: a criação de sete templos, que seriam o núcleo do qual se propagaria a Religião de Umbanda.
 
Os dirigentes recebiam esclarecimentos nas aulas de quinta-feira e, na Tenda da Piedade, preparavam-se os grupos mediúnicos que iriam formar o novo templo. Assim, sucessivamente, as sete tendas fundadas:
 
Tenda Nossa Senhora da Conceição
Tenda Nossa Senhora da Guia
Tenda Santa Bárbara
Tenda São Pedro
Tenda Oxalá
Tenda São Jorge
Tenda São Jerônimo
 
Por volta de 1936, funcionando já seis das sete tendas anunciadas, o Caboclo demorava-se em criar a última, que seria a Tenda São Jerónimo, a Casa de Xangô. Faltava-lhe, dizia, o dirigente adequado.
 
Certa noite de quinta-feira, José Álvares Pessoa, espírita, estudioso de todos os ramos do espiritualismo, não dando muito crédito ao que lhe relatavam sobre as maravilhas ocorridas em Neves, resolveu verificar pessoalmente o que se passava. Logo que chegou à porta da sala em que se reuniam os discípulos, digamos assim, do Sete Encruzilhada, este interrompeu a palestra e disse: já podemos fundar a Tenda São Jerónimo. O seu dirigente acaba de chegar. Pessoa surpreendeu-se. Era desconhecido no ambiente, viera apenas verificar a veracidade do que lhe narravam. Após breve diálogo, em que o Caboclo demonstrou conhecer a fundo o visitante, José Alvares Pessoa assumiu a responsabilidade de dirigir a última das sete tendas que a Entidade criava.
 
Dezenas de tendas foram fundadas sob a orientação do Sete Encruzilhadas no Rio de Janeiro, em São Paulo, Minas Gerais, Espírito Santo, Rio Grande do Sul. Sempre que possível, o médium Zélio participava, pessoalmente, da instalação das novas tendas.
 
Em 1939, o Caboclo determinou que se fundasse uma Federação para congregar os templos umbandistas e que deveria ser o núcleo central desse culto, em que o simples uniforme branco de algodão dos médiuns estabelecia a igualdade de classes, e a simplicidade do ritual permitia dedicar integralmente o tempo das sessões ao atendimento dos necessitados. Mais tarde, surgiu o Jornal de Umbanda, que durante mais de vinte anos foi um porta-voz doutrinário de grande valor.
 
O ritual preconizado pelo Caboclo das Sete Encruzilhadas excluiu tudo que de supérfluo nos legaram as seitas africanas. São palavras textuais de Zélio de Moraes: "O Caboclo das Sete Encruzilhadas não admitia atabaques e nem mesmo palmas nas sessões. Apenas os cânticos, muito firmes e ritmados, para a incorporação dos Guias e a manutenção da Corrente Vibratória. Capacetes, adornos, vestimentas de cores, rendas e lamês não são aceitos nos templos que seguem a sua orientação. O uniforme é branco, de tecido simples. As guias usadas são apenas as que determinam a Entidade que se manifesta. Não é a quantidade de guias o que dá força ao médium. Os banhos de ervas, os amacis, as concentrações nos ambientes da natureza, a par do ensinamento doutrinário, na base do Evangelho, constituem os principais elementos de preparação do médium. E são severos os testes que levam a considerar o médium apto a cumprir sua missão mediúnica.
 
De um artigo de Álvares Pessoa, publicado no suplemento espiritualista de "O Semanário", por volta de 1957, transcrevemos um trecho que define nitidamente a missão do Caboclo das Sete Encruzilhadas: "A tarefa que sobre os seus ombros tomou o Caboclo das Sete Encruzilhadas: - organizar a Lei de Umbanda no Brasil - é um verdadeiro milagre de fé e nos leva a um sentimento de profundo respeito por essa Entidade que se faz pequenina e procura velar-se sob a capa de uma humildade perfeita. É a ele que se deve a purificação dos trabalhos nos terreiros. Não veio destruir o ritual e sim dar-lhe força e método, manter sua pureza propagá-lo com a sua organização maravilhosa. O que nós todos lhe devíamos é inestimável; jamais poderemos retribuir os benefícios espalhados por ele e pelos Espíritos que acorreram a seu chamado. Esse Espírito, cuja fé-é um incentivo para os nossos espíritos, cheios de indecisões, fracos no cumprimento do dever, rebeldes quando não vemos satisfeitos os nossos desejos, bem merece ser enaltecido por todos os filhos de fé que se sentem felizes no ambiente humilde de Umbanda, e que nem de leve suspeitam do seu verdadeiro valor Ele não é um entre muitos, é o primeiro entre todos, porque foi comissionado para o estabelecimerito da Lei, a purificação dos rituais, verdadeiro Pastor da Umbanda, cuja obra, que um dia será gigantesca, se espalhará pelos confins do mundo porque a fé, que é o seu alicerce, a sustentará pelos séculos afora".
 
EM ESSÊNCIA, A UMBANDA FUNDAMENTA-SE NOS SEGUINTES PRINCÍPIOS BÁSICOS:
 
- Na existência de DEUS, Único, Onipotente, adorado sob vários nomes;
- Na crença em um Orixá Maior - OXALÁ - Jesus Cristo
- Na crença em Entidades Espirituais em Plano Superior - Os Orixás, chefiando Falanges;
- Na crença em Guias Espirituais, mensageiros dos Orixás (Caboclos e Pretos-Velhos);
- Na existência do Espírito sobrevivendo ao Homem em caminho de evolução, buscando o aperfeiçoamento;
- Na crença na reencarnação e na Lei do Carma, Causa e Efeito;
- Na prática da mediunidade sob as mais variadas apresentações;
- Na afirmação de que as Religiões constituem os diversos caminhos da Evolução Espiriti que conduzem a Deus;
- Na prática da caridade material e espiritual;
- Na necessidade do ritual como elemento disciplinador dos trabalhos;
- Na crença de que o Homem vive num Campo de Vibrações que condicionam sua vida para o bem ou para o mal, conforme sua própria nica vibratória.
 

Fonte: Revista Espiritual de Umbanda - Nº 08

 Publicado em: 2007-04-30 por NeyBarbosa, última modificação em: 2008-09-21 por RayCasales(2249 vizualização(ões))
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