OXUM
Filha de Oxalá com Yemanjá, ela é a divindade das águas doces, uma força da natureza muito presente em nossas vidas exercendo uma ampla influência em nossos comportamentos, regendo principalmente o lado teimoso e manhoso juntamente daquele espírito maquiavélico que existe em todos nós.
Por Pai Nené D'Osumaré
No bom sentido, Oxum é o "veneno" das palavras, é o comportamento piegas das pessoas, é a forma "medida", esnobe, apresentada principalmente pelo sexo feminino. Oxum é o cochicho, o segredinho, a fofoca. Geralmente está presente quando um grupo de mulheres se reúne, pois se encanta nas conversas, nos risinhos e na alegria. Quando uma pessoa está amando dizemos sempre que ela está na Oxum, isso é verdadeiro, Oxum é o namoro, a paquera, o carinho, é o amor puro, solidificado e sensível e a capacidade de sentir amor. E, se amamos algo ou alguém, temos a certeza de que ela está viva dentro de nós. Embora o mundo de hoje esteja tumultuado demais, ainda existe espaço no coração dos seres humanos para o amor, pois ela ainda está entre nós e é quem gera esse sentimento.
Tudo que esteja ligado à sensualidade, à sutileza, ao romantismo, o charme, o jeito e a pose, tem a regência de Oxum. Ela é o sentimento definitivo, aquele que dura para sempre, é a paz no coração.
Sua regência mais forte é a fecundação, melhor dizendo, o processo de fecundação. Na multiplicação da célula-mater, que vai gerar a criança, a nova vida no ventre. Exu entrega a Oxum a regência, na certeza de que ela evitará um aborto. Sua regência com essa nova vida vai desde o cuidar do embrião até os sete anos de idade da criança, onde então ela entrega para Yá Ori (mãe das cabeças), que dará, depois de seis meses, a resposta do Orixá de cabeça dessa mesma. É com lealdade, respeito, amor ao próximo e com gestos de carinhos com crianças e idosos, que conseguimos manter a presença de Oxum viva dentro de nós.
Mãe das águas doces, Rainha de Ijexá, das cachoeiras e do ouro, é conhecida, também, como a divindade africana mais chegada ao feitiço, devido a sua ligação com as Yámi Oxorongá, onde com elas, as bruxas e feiticeiras, aprendeu a arte da magia. Por isso que seus filhos são tão poderosos nesta arte.
Filha predileta de Oxalá, Oxum é chamada de: "A menina dos olhos de Oxalá", chamada também de Iyalodê, título conferido à pessoa que ocupa o lugar mais importante "entre todas as mulheres da cidade". Ela carrega consigo um espelho (abebé), símbolo da vaidade dessa senhora da beleza e do encanto.
Mas ela encanta também na manha, no denguinho feminino, na vontade de ter algo apenas por ter. Ela é o mimo, a menininha mal acostumada. É a sensualidade do "biquinho" feminino, quando quer uma coisa. É o charme!
É a cachoeira, o rio, que também tem a regência de seu filho. É a queda da água da cascata. Oxum também é a água doce, o olho-d'água, onde encanta seu filho Logunede.
Logunedé é o orixá que vive 6 meses na mata, por ter adquirido de seu pai Oxóssi, a habilidade de caçar e depois, nos 6 meses restantes, assume forma feminina e vive nas águas doces, como sua mãe Oxum, alimentando-se de peixes. Dotado de grande beleza, elegância e poder de sedução, esse orixá adolescente está associado à fartura na caça e na pesca, e, por extensão, à riqueza e à abundância em todas as esferas da atividade humana.
Ele é o príncipe, único orixá adolescente e herdou a força e beleza do seu pai, Oxossi, rei e caçador, e da sua mãe, a sedutora Oxum.
Lendas de Oxum
Conversa de Orixás...
Obatalá... Espera, Oxum! Não posso interferir no processo de vida e morte, mas tenho, como tu mesma tens, poderes para criar e consagrar símbolos que perpetuem um ser, que o represente em qualquer situação e que possa ser renovado constantemente. Um símbolo vivo de alguém que já morreu!
E esse símbolo deverá participar de todos os rituais em nossa honra! E representará, com sua presença, não só a presença de seu pupilo, como também de todos aqueles que um dia receberam o sagrado OXU, que estabelece a aliança firmada entre o iniciado e seu Orixá! Um símbolo que possa representar também a Terra, onde habitam seus corpos depois de levados por IKU!
As galinha-d'angolas gritaram todas em uníssono.
Oxum providenciou, imediatamente, uma galinha-d'angola, que naquele tempo era inteiramente preta e Obatalá lá soprou sobre ela pó de efun, pintalgando-a de branco, como hoje ela é. Oxum então modelou com manteiga de ori da Costa, um cone ao qual acrescentou diversos componentes mágicos e fixou-o sobre a cabeça da ave, dando a ela o status de Odoxu (aquele que possui Oxu), que distingue os iniciados no Culto dos Orixás.
Obatalá sentenciou: a partir desse dia serás representado, em todos os rituais, por Etu, a galinha-d'angola. Qualquer ritual em que ela não estiver presente, não será por nós validado. Esta ave é, a partir de agora, o símbolo dos iniciados do qual foste o precursor e por isso nascerá provida de Oxu e da pintura de efun que é feita em minha honra!
É por isso que, ainda hoje, a galinha d'angola deve estar presente em todas as cerimônias em honra aos Orixás, e uma parte dela compõe o Oxu, que é colocado sobre a cabeça do neófito, na hora de sua iniciação.
- Igbadu - A Cabaça da Existência
- AGalinha-D'Angola
Oxum é a divindade do rio Òsun, em Ijexá, na África, atravessando a cidade de Òsogbo onde lá existe seu principal culto, através do Atáója (esse o Obá da cidade).
Conta-se que o primeiro Obá de Òsogbo estava às margens do rio Òsun, quando esse pedia proteção e auxílio para vários problemas, foi quando um peixe pulou sobre seu colo e "cuspiu-lhe" água, voltando para o rio novamente. Sobre seu filá ficou depositada tal água, que ele bebeu asfixiadamente. Após tal ato, grande parte de seus problemas foram resolvidos e, a partir de então, ele, lá aos pés de uma árvore, criou o primeiro templo de Òsun e transformou-se em "A-tewo-gbaeja", abreviando Atáója, aquele que aceita o peixe.
Oxum, associada à procriação e àa fertilidade, dona das águas doces e protetora de todas as crianças.
Obs: Texto é extraído do livro "Os Nago e a Morte"
Conta-nos uma lenda, que Oxum queria muito aprender os segredos e mistérios da arte da adivinhação, para tanto foi procurar Exu, para aprender os princípios de tal dom.
Exu, muito matreiro, falou a Oxum que lhe ensinaria os segredos da adivinhação, mas para tanto, ficaria Òsun sobre os domínios de Èsú durante sete anos, passando, lavando e arrumando a casa do mesmo, em troca dos ensinamentos.
E assim foi feito durante sete anos. Oxum foi aprendendo a arte da adivinhação que Exu lhe ensinara e conseqüentemente cumprindo seu acordo de ajudar nos afazeres domésticos na casa de Exu.
Findando os sete anos, Oxum e Exu tinham se apegado bastante pela convivência em comum e Oxum resolveu ficar em companhia desse orixá.
Num belo dia, Xangô, que passava pelas propriedades de Exu, avistou aquela linda donzela que penteava seus lindos cabelos à margem de um rio e,de pronto agrado foi declarar sua grande admiração para com Oxum.
Foi-se a tal ponto, que Xangô viu-se completamente apaixonado por aquela linda mulher e perguntou-lhe se não gostaria de morar em sua companhia em seu lindo castelo na cidade de Oyó. Oxum rejeitou o convite, pois lhe fazia muita bem a companhia de Exu.
Xangô, então irado e contradito, sequestrou Oxum e levou-a em sua companhia, aprisionando-a na masmorra de seu castelo.
Exu, logo de imediato, sentiu a falta de sua companheira e saiu a procurar, por todas as regiões, pelos quatro cantos do mundo, sua doce pupila de anos de convivência.
Chegando nas terras de Xangô, Exu foi surpreendido por um canto triste e melancólico que vinha da direção do palácio do Rei de Oyó, da mais alta torre. Lá estava Oxum, triste e a chorar por sua prisão e permanência na cidade do Rei.
Exu, esperto e matreiro, procurou a ajuda de Orumilá, que de pronto agrado lhe cedeu uma poção de transformação para Òsun desvencilhar-se dos domínios de Sàngó.
Exu, através da magia, pôde fazer chegar às mãos de sua companheira a tal poção.
Oxum tomou de um só gole a poção mágica e transformou-se em uma linda pomba dourada, que voou e pode então retornar em companhia de Exu para sua morada.
Adaptação do livro "Lendas Africanas dos Orixás", de Pierre Fatumbi Verger e Carybé - Editora Currupio.
Orê Yeyê ô! Oxum era muito bonita, dengosa e vaidosa. Ela gostava de panos vistosos, marrafas de tartaruga e tinha, sobretudo, uma grande paixão pelas jóias de cobre. Este metal era muito precioso antigamente, na terra dos iorubas. Oxum era cliente dos comerciantes de cobre.
Omiro wanran omi ro!' A água corre fazendo o ruído dos braceletes de Oxum!" Oxum lavava suas jóias antes mesmo de lavar suas crianças. Mas tem, entretanto, a reputação de ser uma boa mãe e atende às súplicas das mulheres que desejam ter filhos. Oxum foi a segunda mulher de Xangô. A primeira chamava-se Oiá-Iansã e a terceira, Obá. Oxum tem o humor caprichoso e mutável. Alguns dias, suas águas correm aprazíveis e calmas, elas deslizam com graça, frescas e límpidas, entre margens cobertas de brilhante vegetação. Numerosos vãos permitem atravessar de um lado a outro. Outras vezes suas águas, tumultuadas, passam estrondando, cheias de correntezas e torvelinhos, transbordando e inundando campos e florestas.
Ninguém poderia atravessar de uma margem à outra, pois ponte nenhuma as ligava. Oxum não toleraria tal ousadia! Quando ela está em fúria, ela leva para longe e destrói as canoas que tentam atravessar o rio. Olowu, o rei de Owu. seguido de seu exército, ia para a guerra, por infelicidade, tinha que atravessar o rio num dia em que este estava encolerizado. Olowu fez a Oxum uma promessa solene, entretanto, mal formulada. Ele declarou: "Se você baixar o nível de suas águas, para que eu possa atravessar e seguir para a guerra, e se eu voltar vencedor, prometo a você nkan rere", isto é, boas coisas.
Oxum compreendeu que ele falava de sua mulher, Nkan, filha do rei de Ibadan. Ela Baixou o nível das águas e Olowu continuou sua expedição. Quando ele voltou, algum tempo depois, vitorioso e com um espólio considerável, novamente encontrou Oxum com o humor perturbado. O rio estava turbulento e com suas águas agitadas. Olowu mandou jogar sobre as vagas toda sorte de boas coisas, as nkan rere prometidas: tecidos, búzios, bois, galinhas e escravos. Mel de abelhas e pratos de mulukun, iguaria onde suavemente misturam-se cebolas, feijão fradinho, sal e camarões. Mas Oxum devolveu todas estas coisas boas sobre as margens. Era Nkan, a mulher de Olowu, que ela exigia. Olowu foi obrigado a submeter-se e jogar nas águas a sua mulher. Nkan estava grávida e a criança nasceu no fundo do rio. Oxum, escrupulosamente, devolveu o recém-nascido dizendo: "É Nkan que me foi solenemente prometida e não a criança. Tome-a!".
As águas baixaram e Olowu voltou tristemente para sua terra. O rei de Ibadan, sabendo do fim trágico de sua filha, indignado declarou: "Não foi para que ela servisse de oferenda a um rio que eu a dei em casamento a Olowu!" Ele guerreou com o genro e o expulsou do país.
O Rio Oxum passa em um lugar onde suas águas são sempre abundantes. Por esta razão é que Larô, o primeiro rei deste lugar, aí se instalou e fez um pacto de aliança com Oxum. Na época em que chegou, uma de suas filhas fora se banhar. O rio a engoliu sob as águas. Ela só saiu no dia seguinte, soberbamente vestida, e declarou que Oxum a havia bem acolhido no fundo do rio.
Larô, para mostrar sua gratidão, veio trazer-lhe oferendas. Numerosos peixes, mensageiros da divindade, vieram comer, em sinal de aceitação, os alimentos jogados nas águas.
Um grande peixe chegou nadando nas proximidades do lugar onde estava Larô. O peixe cuspiu água, que Larô recolheu numa cabaça e bebeu, fazendo, assim, um pacto com o rio. Em seguida ele estendeu suas mãos sobre a água e o grande peixe saltou sobre ela. Isto é dito em ioruba: Atewo gba ejá. O que deu origem a Ataojá, título dos reis do lugar. Ataojá declarou então: "Oxum gbô!" "Oxum esta em estado de maturidade, suas águas são abundantes". Dando origem ao nome da cidade de Oxogbô. Todos os anos faz-se, aí, grandes festas em comemoração a todos estes acontecimentos.
Fonte: Revista Orixás Cabndomblé e Umbanda – Ano II – Nº 6 – Editora Minuano Publicado em: 2007-06-19 por NeyBarbosa, última modificação em: 2007-06-19 por NeyBarbosa(3079 vizualização(ões)) Histórico
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