JOÃO DA PEDRA PRETA
Homem de temperamento forte e atos inteligentes, conseguiu escrever sua história, que guardamos com carinho em nossas lembranças
João Alves Torres Filho, conhecido como Joãozinho da Goméia, nasceu em 1914 na cidade de Inhambupe, interior da Bahia, predestinado a ser um astro. No final de sua adolescência já tinha seu terreiro e filhos-de-santo. Não era considerado pela elite dos candomblés baianos como um sacerdote sério e de legitimidade.
Contavam que sua iniciação não condizia com os mesmo padrões dos ritos da religião e alguns o taxaram como pai-de-santo charlatão, que usurpou o título para se promover.
Mas nada disso abalava o jovem Babalorixá, que também tinha seus defensores: - "Se estivesse vivo ninguém ousaria falar na sua cara", diziam.
Fundou seu primeiro terreiro no bairro de São Caetano, na Rua Goméia, na Bahia, a qual deu origem ao nome popular do seu axé. Depois de algum tempo fundou o seu segundo terreiro no bairro de Copacabana, Duque de Caxias, baixada fluminense do Rio de Janeiro.
Durante as décadas de 50 e 60, sua meteórica ascensão incomodou muita gente. Descobriu a força da imprensa e se deixou levar. Foi diversas vezes capa da Revista Cruzeiro e sempre deu entrevistas picantes. Não concordava com muitas das grandes mães-de-santo da época, as quais achava ignorantes e intolerantes.
FILHOS DE SANTO
Teve muitos filhos-de-santo, os quais ainda hoje se orgulham de serem descendentes dessa raiz "Goméia". Muita gente importante freqüentava sua casa, como artistas e políticos e conta-se que os ex-presidentes Getúlio Vargas e Juscelino Kubitschek, foram seus clientes.
Ótimo bailarino, suas divindades manifestadas enchiam os olhos de seus convidados de um belo espetáculo.
Filho de Oxossi e Yansã, tinha um caboclo chamado Pedra-preta, que era uma entidade muito boa e até hoje é lembrado e cultuado pela sua família de santo.
Polêmico, sempre teve muita coragem. Vestia-se de mulher no carnaval e alisava os cabelos, fatos esses que escandalizavam os bastidores da religião.
Mas seu maior feito foi levar o Candomblé para as sociedades, ajudando a popularizar e diminuir o preconceito que existia. Contribuiu para que a religião fosse vista de modo diferente para os leigos, levando assim uma grande massa a fazer parte do culto. Apesar de toda a represália em cima do seu nome, não deixou de viver e ser feliz, ajudando os outros a serem também. Sua fama se igualou à da mãe Menininha do Gantois, a qual ele respeitava muito. Sua morte precoce, em 1971, deixou um grande vazio que o astro ocupou.
Seus dois terreiros, tanto o da Bahia como o do Rio, foram extintos, mas seus descendentes continuam tocando suas festas no rito Angola, com muito orgulho e prazer. Que Deus ofereça o descanso eterno ao João da Pedra Preta.
Silvio D'Osumaré
Fonte: Revista Orixás, Candomblé e Umbanda – Ano I – N° 03 Publicado em: 2007-05-04 por NeyBarbosa, última modificação em: 2007-05-04 por NeyBarbosa(1457 vizualização(ões)) Histórico
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